Aos 80 anos, João Bosco recria a obra com sofisticação no sopro renovador do álbum 'Amigos novos e antigos'

  • 25/09/2026
(Foto: Reprodução)
João Bosco posa com alguns convidados do álbum 'Amigos novos e antigos', lançado hoje, 25 de setembro, com 18 faixas Fotos de André Rola / Montagem g1 ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Amigos novos e antigos Artista: João Bosco Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ Música lançada em 1975 na voz de Ney Matogrosso, no primeiro álbum solo do cantor, “Corsário” (João Bosco e Aldir Blanc) tangencia o formato de peça sinfônica em “Amigos novos e antigos”, álbum que João Bosco lança hoje, sexta-feira, 25 de setembro, para celebrar os 80 anos completados em 13 julho. Em gravação de nove minutos e meio, “Corsário” vem embalada em mar de cordas em majestosa passagem instrumental que ocupa mais de dois minutos da faixa antes que o cantor comece a recitar versos do poema “E então, que quereis?...” (1927) – um dos mais famosos da obra do poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893 – 1930), poema desde 1989 acoplado por Bosco à música de 1975 – e antes que a música seja efetivamente cantada por Ivete Sangalo em tom excepcionalmente sóbrio, sem o habitual tempo de alegria da artista baiana. João Bosco fala sobre carreira e projetos musicais A abordagem de “Corsário” exemplifica o rigor estético que pautou a gravação deste disco de duetos gravado sob direção artística de Julia Bosco – filha e empresária do artista. Por mais que as músicas já sejam conhecidas e por mais que o público seguidor do cantor, compositor e músico mineiro já esteja habituado ao gagabirô de João, há um sopro de renovação em “Amigos novos e antigos” que distancia o álbum do mercado comum da música. Basta dizer que o álbum é longo para os padrões atuais, com as 18 faixas roçando uma hora e meia. Também relevante por ser o primeiro projeto de duetos da discografia de Bosco, ”Amigos novos e antigos” é álbum para quem gosta de ouvir música sem a fugacidade dos aplicativos de áudio e das redes sociais. Além de conectar João Bosco com artistas da geração 2020, como Bruna Black e Jota.Pê, os amigos novos do título do disco, esse sopro renovador vem sobretudo da presença de Rafael Rocha, trombonista que divide os arranjos e a produção musical do álbum com o próprio João Bosco (os arranjos de cordas e metais são de Rafael). João Bosco em estúdio durante a gravação do álbum 'Amigos novos e antigos', disco revisionista com o qual celebra 80 anos André Rola / Divulgação Há no álbum um frescor já sinalizado pelo EP que adiantou seis das 18 faixas (leia aqui a resenha dessa primeira parte do álbum, a partir de hoje integrada ao conjunto da obra). O fato de o álbum abrir e encerrar com o afro-samba “Odilê, odilá” (1985) – reouvido em dueto do anfitrião com Martinho da Vila, coautor da composição lançada por Martinho – parece ratificar que todo o vasto universo musical de João Bosco vem da África, fonte sonora que esse mineiro amalgamou com as trilhas barrocas das Geraes, com o samba, o bolero, a bossa nova, o jazz e os sons das Arábias. Tudo isso está junto e misturado nas 18 faixas do álbum “Amigos novos e antigos”. Mais uma vez, João Bosco recria a própria criação sem preguiça e sem seguir fórmulas prontas. E tudo parece soar novo de novo pela força da mistura e das conexões. Se o samba “Incompatibilidade de gênios” (João Bosco e Aldir Blanc, 1976) transita pela trilha do afro-jazz-latino, com o piano de Gonzalo Rubalcaba pondo molho cubano e jazzístico na gravação da música cantada por Bosco com Chico Buarque, “Papel machê” (João Bosco e José Carlos Capinan, 1984) se desenrola com cordas e com o canto de Silva evocando a bossa nova. Os sopros são proeminentes em boa parte da arquitetura sonora do álbum, confeitando os arranjos executados pelo virtuoso naipe formado pelos músicos Armando Marçal (percussão), Guto Wirtti (baixo), Jurim Moreira (bateria) e Ricardo Silveira (guitarra e violão de aço) – banda-base de disco que fará com que seguidores da MPB passem a ouvir Bruna Black com mais atenção. Com agudos firmes, Bruna Black se afina com o canto de Bosco na intrincada música-título “Amigos novos e antigos” (João Bosco e Aldir Blanc, 1974), lançada na voz de Maria Alcina, regravada logo em 1975 por Vanusa (1947 – 2020), reavivada seis anos depois pelo próprio Bosco no álbum “Essa é a sua vida” (1981) e ainda assim praticamente desconhecida em 2026. “Memória da pele” (João Bosco e Waly Salomão, 1989) também bate fundo na voz de outra grande cantora da atualidade, Vanessa Moreno, em gravação com o toque do violoncelo de Jaques Morelenbaum. Música que exemplifica a habilidade de Bosco para evocar o mundo árabe, “Jade” (João Bosco, 1989) reluz no canto aveludado de Jota.Pê em gravação pontuada pelo sopro da clarinetista e saxofonista israelense Anat Cohen. Há amigos presentes na ausência. A aura de Aldir Blanc (1946 – 2020), parceiro fundamental de Bosco nos anos 1970 e 1980, paira sobre o álbum, especialmente sobre o canto do “Toma lá, dá cá” (João Bosco e Aldir Blanc, 2007), samba ora incorporado à discografia oficial de João Bosco em gravação sem feat. Já a simples presença de Caetano Veloso em “Sinhá” (João Bosco e Chico Buarque, 2011) se justifica pelo ineditismo do encontro em estúdio desses dois gigantes da MPB. Fora do universo nordestino, a sanfona de Mestrinho embeleza o bolero “Quando o amor acontece” (João Bosco e Abel Silva, 1987), cantado somente por Bosco com a habilidade de sempre recriar e lapidar a criação a cada nova abordagem. Bosco canta como um jazzista. Nada nunca é igual no canto do artista. Embora soe como alien por ter sido feita com outra banda e consequentemente com outra arquitetura sonora, a gravação do samba “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc, 1979) não chega a macular o conjunto da obra. O canto de Pedro Mariano e Rafa Mariano – filha de Pedro – soa opaco, mas é redimido pelo elo com Elis Regina (1945 – 1982). Elis, mãe de Pedro e avó de Rafa, foi a voz original desse samba que anunciou os ventos da abertura política e foi intérprete fundamental da obra de João Bosco e Aldir Blanc desde 1972, ano em que Bosco foi apresentado ao Brasil, até sair precocemente de cena. Mesmo ausente, Elis Regina salva a pátria mais uma vez... Mas Maria Rita seria a intérprete ideal para o samba... Decorridos 54 anos do lançamento da primeira música de João Bosco, esse mestre-sala da MPB desfila apoteótico pela própria obra em “Amigos novos e antigos”, álbum confeccionado em nome da arte, longe da banalidade e do espírito de karaokê que rege a maioria dos discos de duetos. Capa da edição integral do álbum 'Amigos novos e antigos', de João Bosco Victor Correa a partir de conceito criado por Julia Bosco, João Ferro e Victor Correa

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/09/25/aos-80-anos-joao-bosco-recria-a-obra-com-sofisticacao-no-sopro-renovador-do-album-amigos-novos-e-antigos.ghtml


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